HISTÓRIA E VESTÍGIOS LUSÓFONOS NO

BENIN


Os portugueses chegaram à costa do actual Benim por volta do ultimo quartel do século XV. No entanto não procederam a nenhuma fixação regular além daquela relativa ao comércio baseado na troca de bens diversos por escravos. Durante o século XVI as atenções doa portugueses estiveram centradas na região correspondente ao actual Gana e no arquipélago de S.Tomé e Príncipe.  O nome Benim não deve ser confundido com o Reino do Benim, região actualmente incorporada na Nigéria; o actual país Benim foi sempre auto denominado pelos portugueses e franceses e autóctones como Reino do Daomé.

A fixação mais permanente dos portugueses nestas paragens é propiciada pela conquista pelos holandeses das suas posições no actual Gana, que fornecia muitos escravos, havendo necessidade de continuar a enviar para o Brasil cada vez mais escravos devido principalmente à cultura da cana do açúcar. Por disposição régia de D.Pedro de Portugal em 1680 instruiu o Capitão Geral de S.Tomé a construir um forte e uma feitoria na costa da Mina. Na costa da Mina será comprado aos dinamarqueses um forte e na costa do actual Benim será construído um fortim a poucas milhas do mar, servido pelo porto de Adra. Nesta época a região era dominada pelo reino de Ajudá. A Junta de Comércio do Brasil vai administrar o comércio nesta região, dependendo mais o forte dela do que dos capitães de S.Tomé. Muitas naus brasileiras irão a partir desta altura frequentar esta região, principalmente para transaccionar escravos. Em 1684 uma missão de frades Capuchinos instala-se no fortim. A partir desta data a historia é um pouco contraditória para não dizer omissa, mas é comum aceitar-se que por altura do fim do século este entreposto terá entrado em decadência e eventualmente sido abandonado. O que é certo é que mais tarde em 1721, o 4ºVice Rei do Brasil, por ordem da metrópole, envia uma expedição sob o comando de José Torres que com o acordo do soberano do Daomé, que já dominava então a região, constrói em Novembro desse ano uma nova fortaleza e uma feitoria em Ajudá, à qual dá o nome de S.João Batista. Nela deixa Francisco Pereira Mendes com cerca de 30 homens. O comandante José Torres passa depois a Jaquém, porto principal do monarca de Adra, onde também erige uma fortaleza. 

Entretanto também são fundadas feitorias em Popo, Apa, Calabar e Camarão. Muitos navios dedicados ao comércio do tabaco navegam do Brasil para aqui carregarem escravos. Torna-se um trafico muito rentável e a partir daí é o cofre de S.Salvador da Baia  que paga as despesas dos fortes. Devido à instabilidade da região o forte de Jaquém  é tomado temporariamente em 1732. Em 1736 sucede o mesmo tanto a Jaquém como ao forte de Ajudá, embora por influência de alguns locais portugueses voltam novamente à posse portuguesa. Mas em 1738 o forte de Jaquém é tomado por revoltosos que estavam contra o monarca Tebesso do Daomé e é atacado por este e destruído, nunca mais voltando a ser reocupado. Em 1743 o forte de Ajudá também é ocupado por forças opositoras ao rei do Daomé; o forte é atacado pelo monarca e parcialmente destruído. No entanto, para o monarca do Daomé este entreposto se revela muito importante pois permitia a saída de 6000 escravos por ano, e logo pede aos oficiais do forte francês no Daomé que o ajudem a reconstruir o que é efectivamente levado a cabo pouco depois. Devido à importância deste comércio o rei do Daomé envia em 1750, em 1795 e em 1805, emissários ao Brasil, para pedirem ao Vice Rei o aumento deste comércio de escravos e até a sua exclusividade com o seu reino, em troca principalmente do tabaco.

Ao longo do século XIX este status quo se mantém, até que em 5 de Agosto 1885 o monarca do Daomé estabelece um acordo com Portugal em  que é cedido a este o bairro e o porto de Zomai e a oeste de Ajudá o porto de Adra; com este porto o forte deixava de estar isolado sem ligação directa ao mar. É igualmente estabelecido um protectorado compreendendo toda a costa do Daomé, incluindo as localidades de Cotonou, Godomé, Avrequete, Ajudá e Pescaria. Era compreensível que o monarca do Daomé pretendesse através de uma potência menos ameaçadora como era Portugal, salvaguardar-se da entrada de outras potências que pudessem ameaçar efectivamente o seu reino e possivelmente ocupá-lo, como mais tarde veio realmente a acontecer com a  França. Esta região torna-se então um distrito de S.Tomé e formará a então denominada África Equatorial Portuguesa. 

Os franceses logo protestaram contra a ocupação de Cotonou que afirmam lhes ter sido dada por tratados em 1868 e 1878. Perante a pressão francesa, Portugal dá ordem de retirada de Cotonou em 13 de Dezembro de 1885. A partir daí os franceses protestam também contra o protectorado na costa do Daomé, mas não levantaram obstáculos quanto à posse do bairro e porto de Zomai e do porto de Adra. No entanto, devido ao facto de um novo governo português que tomou posse em 1887 não querer entrar em litígios com a França na região e pretender sim apostar noutras regiões de África, em 19 de Dezembro de 1887 abandona o protectorado na região e estranhamente também a posse dos portos de Adra e Zomai, necessários para a ligar o forte de S.João Batista ao mar e assim haver uma ligação directa independente de terceiros. Os franceses estabelecem um protectorado no reino vizinho de Porto Novo e em 1892 iniciam uma guerra de conquista do Daomé e que nesse mesmo ano ocupam a cidade de Ajudá e os referidos portos, pois Portugal se negou a manter a ocupação destes pontos vitais. O forte não será ocupado para não criar um casus belis entre Portugal e a França mas ficará a partir daqui limitado aos seus 13.000 m2 de área e dependendo da boa vontade francesa para ser reabastecido.

A república será implantada em Portugal em 1910 e no ano seguinte as suas novas autoridades consideram, com razão, da desnecessidade de possuir uma força militar aquartelada no forte e a mandam regressar a S.Tomé, passando a ter apenas um residente e algum pessoal auxiliar, maioritariamente local. O residente seria a partir de agora e quase sempre, um oficial do exército.

O bom relacionamento com a França mantém este espaço intocável, o qual constituirá a unidade política mais pequena do mundo. No seu interior serão de tempos a tempos efectuadas algumas obras de restauro. Mas com a independência do Daomé em 1960, denominado depois de Benim, a situação política altera-se e o nacionalismo africano toma conta das vontades dos governantes e em 25 de Julho de 1961 o presidente Hubert Muge do Benim faz um ultimato a Portugal para abandonar o forte até dia 31 de Julho de 1961. Portugal assim o faz, não sem antes no ultimo dia incendiar o forte. O seu ultimo residente e um diplomata português são então expulsos do país. No início de 1962 Portugal paga as indemnizações aos 13 funcionários locais que serviam no forte português.

Só em 1977 são restabelecidas as relações diplomáticas entre os dois países. Nos anos 80, por vontade de ambas as partes é acordada a restauração do forte, a qual é efectuada por uma empresa portuguesa de construção sob direcção e expensas da Fundação Calouste Gulbenkian. Em 1990 é inaugurada a nova estrutura que tem agora um vasto auditório ao ar livre e é também sede do museu de Ajudá. Muitos dos que assistiram a esta cerimónia tinham apelidos portugueses, como resultado dos muitos anos de relacionamento e de presença dos portugueses na região.