| Breve história de Cabo Verde | |
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| A descoberta e o ínicio da colonização | |
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Os primeiros navegadores portuguêses a chegarem às ilhas de Cabo Verde fazem-no por volta de 1456. O seu lider chamava-se Cadamosto. As ilhas foram encontradas desabitadas. No entanto é provável que navegadores Fenícios e certamente Árabes tenham visitados as ilhas em diversas ocasiões assim como alguns pescadores da costa da Guiné. Mas no entanto nenhum deles se estabeleceu nas ilhas, pelo menos de uma forma permanente. As primeiras fixações de colonos são iniciadas na ilha de Santiago, dividida entre dois donatários; a ilha tinha água fresca e um porto abrigado, o qual será mais tarde denominado porto da Ribeira Grande. Os primeiros colonos são portuguêses espulsos ou indultados, vários genoveses, flamengos e judeus sefarditas. A partir de 1469 é-lhes autorizado pela Coroa a possuirem e a comercializarem escravos. Pouco depois Portugal dá-lhes a autoridade sobre todo o comércio com a África Ocidental, excepto Arguim. Como a grande maioria dos colonos vinham para Cabo Verde eram homens brancos que geralmente não tinham mulher, resultava daí que acabavam por casar com as mulheres africanas que traziam do continente, surgindo daí uma vasta população mulata. Tanto colonos europeus como esta população mulata passará muitas vezes ao continente onde formarão a classe dos lançados, que são intermediários comerciais, principalmente do comércio de escravos. No continente casarão inclusivé com mulheres locais como forma de solidificarem as sua posição social nas sociedades africanas. No entanto os produtos que utilizam para comercializar são restritos pela Coroa aos produtos do arquipélago na época, que eram o algodão e os cavalos. Cabo Verde gradualmente torna-se a plataforma a partir da qual os portuguêses comercializam com a África Ocidental e administram os entrepostos entretanto fixados em pleno continente, nomeadamente a ilha de Bezeguinche (actual ilha da Goreia), Cacheu, porto de Barrancuda na actual Gâmbia, Casamansa, Bijagós e até territórios que iam até à actual Serra Leoa.
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| O desenvolvimento no séc.XVI | |
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Cabo Verde torna-se um local de cruzamento das rotas inter-atlânticas; muitos dos escravos que são enviados para a América espanhola partem deste arquipélago. Durante muitos anos Portugal foi o principal fornecedor de escravos negros aos espanhóis. Neste século desenvolve-se a industria de fiação, muito importante na época pois era com os tecidos que se podiam efectuar muitas das aquisições de escravos na costa africana. Ao nivel religioso é construida em 1495 a Igreja de Nossa Senhora do Santo Rosário na Ribeira Grande. Mais tarde é construido um convento, um seminário e a primeira catedral de África. A diocese recebe reconhecimento papal em 1533. No mesmo ano a vila da Ribeira Grande é elevada a cidade. Em 1550 um Bispo toma residência em Cabo Verde com jurisdição sobre quase toda a África Ocidental. Como se ia tornando gradualmente um entreposto comercial importante, não tardou a sofrer ataques de paises inimigos de Portugal. O primeiro ataque deu-se durante a Guerra de Sucessão espanhola de 1475-79, em que os castelhanos atacam a Ribeira Grande levando muitos europeus para resgatar e negros para voltar a vender. Em 1542 os piratas frânceses afundam 2 navios próximo do Fogo e 2 anos mais tarde atacam a própria Ribeira Grande. Por volta de 1560 2 incursões de piratas inglêses atacam com grandes prejuizos a Ribeira Grande. Em 1582 e 1585 o inglês Francis Drake queima e saqueia a Ribeira Grande. Ataques de piratas holandeses completam o rol de investidas que causam grandes prejuizos aos moradores da Ribeira Grande. Em 1598 os holandeses desferem outro grande ataque à Ribeira Grande. Muitos escravos aproveitam estes ataques para ao abrigo da confusão fugirem para o interior da Ilha de Santiago e formarem comunidades autónomas. Em 1596, o rei D.Filipe I ordena a construção de fortificações sobre a Ribeira Grande para esta melhor se defender dos piratas.
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| Os séculos XVII e XVIII | |
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Cabo Verde consegue desenvolver a produção de outros produtos que também exporta como peles, sebo, sal, couro, além dos mencionados cavalos e tecidos. Outro produto que adquire bastante importância é a produção do açucar, maioritáriamente na ilha de Santiago; as ilhas tornam-se auto suficientes nesse produto e exportam muito deste produto até ao fim do século XIX, quando passam a ser importadoras. Vários frutos como figos, melões e uvas são também produzidos. Apesar de algum desenvolvimento agricola as secas ciclicas arruinam muitas das culturas o que provoca ao longo dos séculos, até ao século XX muitas mortes por má nutrição. A pesca da baleia torna-se também uma actividade importante nestes séculos. Politicamente Portugal uniu-se à Espanha em 1580 mas a ilha do Fogo nunca hasteou a bandeira espanhola e depois de 1640, depois da independência portuguêsa a vila de S.Filipe será promovida a cidade como prémio pela dedicação à bandeira portuguêsa. Em 1652 a capital de Cabo Verde passa para a Praia, um local militarmente mais defensável que tinha sido criado em 1612. Em 1712 um forte ataque de 2000 homens do francês Cassard destroi violentamente a Ribeira Grande, não voltando a localidade ao seu anterior fulgor. A nivel demográfico dá-se um aumento significativo da população durante estes dois séculos, sendo igualmente acompanhado por um aumento da população liberta e da sua mestiçagem. Em 1800 não mais que 10% da população era escrava. Para isso contribuiram decisivamente os casamentos mistos; a nivel politico, em 1701 o rei português D.Pedro II ordenou que terminassem todos os impedimentos que os donos de escravas apresentavam, nomeadamente o preço elevado pela sua liberdade, de modo a estas se poderem casar com os homens livres, muitos deles europeus ou mulatos. A nivel religioso, a primeira catedral africana é construida em 1693 na Ribeira Grande, feita com as pedras transportadas nos navios como lastro ao longo dos séculos. Apesar de muito do clero ser já de origem africana, os Bispos nomeados vêm sempre de Portugal e só depois da independência no século XX será nomeado um cabo verdiano.
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| O século XIX | |
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Neste século operam-se muitas mudanças sócio-económicas influenciadas pela conjuntura internacional, a qual mais do que por influência de Portugal determinam o rumo que o arquipélago seguirá até aos nossos dias. As secas e as fomes continuaram a surgir ciclicamente: em 1830 30.000 pessoas morrem, correspondendo a 42% da população. Só alguma ajuda estrangeira, nomeadamente norte americana tenta aliviar estas dificuldades, iniciando-se assim vários contactos que ajudarão mais tarde a projectar uma corrente emigratória destas ilhas para os Estados Unidos. Até meados do século XIX muitos baleeiros americanos e alguns de outras países, não incluindo Portugal, demandam as águas de Cabo Verde para a pesca deste cetáceo para a produção do oleo de baleia; com a descoberta do petroleo nos EUA, alternativa mais barata, os baleeiros começam a diminuir nas águas do arquipélago até desaparecerem no fim do século; serviram na sua época aurea para dar trabalho a muitos naturais das ilhas. O sal é outro produto exportado em grande escala, nomeadamente para o Brasil, até este colocar no fim do século taxas aduaneiras que tornavam proibitiva a sua importação. Os EUA são outro importador importante do sal. Outros produtos produzidos e exportados neste século eram o algodão, peles, couros, tartarugas, milho, aguardente, sangue de drago21, tabaco, âmbar, urzela, óleo e sementes de purgueira, além dos escravos e dos tradicionais panos. Com o advento dos navios a vapor tornou-se necessário criar nos portos reservas deste produto como combustivel para os navios; em 1838 os inglêses criam o primeiro depósito e pouco depois em S.Vicente são exploradas minas de carvão, as quais no seu auge de produção são as quartas maiores minas de carvão do mundo. Em 1898, cerca de 1500 navios escalam o porto do Mindelo. Politicamente regista-se a criação de um governo na Guiné Bissau separado de Cabo Verde e com jurisdição de todos os territórios portuguêses no Continente. As dificuldades económicas levam a que muitos Cabo Verdianos emigrem a partir deste século para o estrangeiro, nomeadamente os EUA, contribuindo com as suas remessas de dinheiro para diminuir o défice local. Mas a emigração cabo verdiana foi também forçada por outros factores; com a definição colonial de Portugal na segunda metade do século XIX, a Angola e Moçambique coube o papel de fornecer materias primas e para serem mercados de escoamento de produtos portuguêses; como Cabo Verde era um território pequeno e de matérias primas minerais quase inexistentes, além de possuir uma agricultura ineficiente que nem cobria o mercado local, o papel desta colonia foi a de servir de mão de obra serviçal, num regime de obrigatoriedade compulsiva, em que o serviçal era levado principalmente para São Tomé para trabalhar nas roças, voltando ao fim de 3 a 5 anos, enfraquecido pelas doenças e maus tratos e trazendo pouco dinheiro pelos seus serviços. Este regime estipulado pela lei duraria até à segunda metade do século XX, precisamente até 1970. . |
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| O século XX até à independência | |
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O século XX inicia-se com mais um periodo de seca e fome que mata cerca de 11 000 pessoas, 15% da população. Em Cabo Verde acentuam-se cada vez mais as tendência emigratórias da sua população, mas de uma forma desproporcional quanto ao sexo, pois a maioria dos emigrantes são homens, o que provoca mesmo nalgumas ilhas que as mulheres constituam mais de 60% da população. A emigração livre dirige-se principalmente até aos anos 20 para os EUA,, para New Bedford e depois para a Califórnia. Com as politicas mais restritivas de imigração por parte deste país nos anos 20, a emigração cabo verdiana começa-se a dirigir para a Europa, principalmente depois da segunda guerra mundial, para paises como Portugal, Holanda, França e Itália. Muitos emigrantes vão também para o Brasil e em África formam-se também grandes comunidades no Senegal e principalmente em Angola. Hoje em dia mais de meio milhão de cabo verdianos e seus descendentes vivem fora do seu país. Ao nivel das infraestruturas, a Itália é autorizada em 1939 a construir um aeroporto na ilha do Sal, de modo a apoiar os seus crescentes contactos com a América do Sul. O advento da II Guerra Mundial dificulta a conclusão das obras e só em 1949 os portuguêses terminam o aeroporto, melhorando-o em 1963 para receber aviões comerciais a jacto. Este aeroporto será sempre o local onde todos os aviões da companhia aérea sul africana farão escala técnica nas suas viagens para a Europa, durante o regime de sanções internacionais. No porto do Mindelo são concentrados os melhoramentos das infraestruturas portuárias, tornando-se definitivamente o principal porto internacional do arquipélago, ponto importante no cruzamento das rotas maritimas atlânticas. Nos anos 60 é também construido o primeiro hotel moderno das ilhas, que é o Hotel Morabeza, o qual servia de apoio a muitas tripulações da companhia aérea sul africana. Outros hoteis se seguirão depois da independência. É um embrião do turismo, actividade que ganhará outra expressão mais tarde. Cabo Verde que durante o século XIX recebe muitos deportados de Portugal por diversos crimes, vê ser no seu território construida em 1936 a prisão do Tarrafal, na ilha de Santiago, para receber presos politicos; será utilizada até à independência, salvo breve interregno, para aprisionar muitos dissidentes tanto de Portugal no ínicio, como mais tarde também das outras colónias africanas em luta pela independência. É hoje um museu. Nos anos 40 mais secas e fomes dizimam a sua população.Em 1959-60 verifica-se outra seca mas a ajuda alimentar do governo é suficiente para não se registarem mortes. em 1968 inicia-se uma seca prolongada, a qual aliada ao declinio da economia fez com que o arquipélago cada vez dependesse mais da ajuda de Portugal, o qual lhe atribuía uma subvenção não reembolsável para cobrir as suas despesas públicas, subvenção essa que em 1974 correspondia a 54% do valor das referidas despesas publicas, sendo os restantes 46% recebidos dos impostos e taxas locais.
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| Revoltas e conflitos | |
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Cabo Verde é palco de várias revoltas desde a sua ocupação até à sua independência; nem todas estas revoltas tinham um cariz independentista mas eram sintomáticas de um sentimento de injustiça que se foi acentuando ao longo dos anos, o qual culminou num desejo de maior autonomia em relação a Portugal. No século XVIII e XIX ocorreream diversas revoltas de escravos que foram rápidamente sufocadas. Em 1811 uma revolta dos moradores de Santiago é resultante dos pesados impostos colocados para pagar a milicia de Santiago. Vários levantamentos no Séc.XIX foram pensados baseados numa possivel ligação em autonomia com o Brasil, mas que naturalmente nunca vingaram. Em 1910 dá-se uma insurreição camponesa em Ribeirão Manuel na ilha de Santiago, em resultado da prisão de várias mulheres que tinham sido presas por apanharem sementes produtoras de sabão, um monopólio oficial. Chegaram a efectuar um ataque à prisão da Cruz Grande. Em 1934 dá-se uma revolta em protesto contra a fome, liderado por Nho Ambrosino, na ilha de S.Vicente, em que os manifestantes caminham pelas ruas com bandeiras negras e saqueiam vários armazéns e estabelecimentos comerciais. Nos anos 40 e 50 vários estudantes luso-africanos em Portugal desenvolvem ideias pan africanas, culminando na fundação de vários movimentos independentistas para cada uma das colónias portuguêsas. Em 1956, Amilcar Cabral funda o P.A.I.G.C., Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde. Amilcar Cabral nasceu na Guiné Bissau e era filho de cabo verdianos. Ele irá comandar uma longa luta politica e militar pela a independência da Guiné e de Cabo Verde. Em Janeiro de 1963 é iniciada a luta armada na Guiné Bissau contra o dominio colonial. Nessa luta de guerrilha participam muitos cabo verdianos, pois esperavam enfraquecer o dominio português nas florestas da Guiné numa estratégia que a médio prazo levasse não só à independência da Guiné como a de Cabo Verde, país onde uma guerra de guerrilha seria impossivel. Portugal consegue manter as suas posições, defendendo os centros populacionais mais importantes, deixando em consequência o restante território nas mãos na guerrilha. Os serviços secretos portuguêses conseguem infiltrar-se na estrutura do PAIGC e aproveitando-se das rivalidades internas, nomeadamente entre guineenses e cabo verdianos consegue organizar o assassínio de Amilcar Cabral em Janeiro de 1973. Mas a luta armada continuará e seguindo a estratégia delineada pelo falecido dirigente e aproveitando a retirada dos postos militares portuguêses na região de Madina do Boé e a sua concentração noutras áreas, é decidida a constituição de uma Assembleia Nacional, a qual proclama nesta região a 24 de Setembro de 1973 a independência da Guiné Bissau, tendo como primeiro presidente Luis Cabral, irmão do falecido dirigente; esta independência é reconhecida por muitos paises, entre os quais a Grã-Bretanha, antigo aliado de Portugal. Em 25 de Abril de 1974, um golpe de estado militar derruba a ditadura em Portugal e abre-se assim o fim da guerra e o do império colonial português. Os acordos de Londres e de Argel em Agosto de 1974 levam ao reconhecimento da independência da Guiné-Bissau em Setembro e do mesmo direito à independência de Cabo Verde. Ainda houve da parte de alguns sectores portuguêses a vontade de negar esse direito argumentando que Cabo Verde seria uma continuidade de Portugal, podendo quanto muito ser-lhe dado uma maior autonomia mas esta tese não vingou. Formou-se então um governo de transição composto por portuguêses e cabo verdianos presidido por um Alto Comissário português. A 30 de Junho de 1975 efectuam-se as primeiras eleições a que concorre apenas o PAIGC. A 5 de Julho de 1975 é proclamada a independência de Cabo Verde. Aristides Maria Pereira torna-se o seu primeiro Presidente.e Pedro Verona Pires o primeiro ministro.
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| De 1975 aos nossos dias | |
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Cabo Verde inicia o seu periodo de independência em condições dificeis; o governo deixa de receber de Portugal a subvenção anual para cobrir as despesas públicas; o país tem menos de 3 meses de provisões de alimentos e medicamentos essenciais. Num ano bom o país apenas pode esperar produzir cerca de 20% dos alimentos consumidos. O desemprego é elevado. Nos anos 80 as remessas dos emigrantes constituem 25% do Produto Nacional Bruto do país. Felizmente entre 1975 e 1978 as chuvas são adequadas às necessidades do país. Ao nivel politico, em Novembro de 1980 um golpe de estado na Guiné Bissau, perpetrado por Nino Vieira, depõe Luis Cabral, o qual foge para Cabo Verde. Em Janeiro e Fevereiro do ano seguinte dá-se a cisão definitiva com o PAIGC e forma-se o PAICV, Partido Africano para a Independência de Cabo Verde. Em 1991 realizam-se as primeiras eleições multipartidárias, nas quais é eleito Carlos Veiga como primeiro ministro, pelo MPD, Movimento para a Democracia. Dias depois, António Mascarenhas Monteiro é eleito Presidente da Republica. As eleições de Fevereiro de 2001 foram ganhas pelo PAICV de Pedro Pires que se tornou o actual Presidente da republica, tendo nomeado José Neves para primeiro ministro. Cabo Verde recebeu nos anos 80 a maior ajuda internacional per capita do que qualquer outro país africano e mantêm actualmente o 100º lugar nos niveis de desenvolvimento humano, à frente de todos os outros países africanos. Cerca de 80% das suas importações vêm da Europa, com Portugal à frente. Holanda, França, Grã Bretanha, Espanha e os USA são outras importantes fontes de importações, além das poucas exportações do arquipélago. Os principais produtos produzidos actualmente são o milho, as bananas, os feijões, a batata doce, a cana do açucar, o café, os amendoins e o peixe. Vários melhoramentos estão a ser introduzidos na sua industria pesqueira, para a qual o país tem grandes potencialidades. O turismo é outra das apostas que está a ser ganha e actualmente já cerca de 20.000 pessoas visitam o país. Este sector mantêm-se como uma das grandes esperanças para o país no século XXI reduzir substancialmente o acentuado desequilibrio existente na sua balança comercial. Cabo Verde é actualmente um dos países mais estáveis do mundo e já ocupou nos anos 90 um lugar no Conselho de Segurança da ONU.
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Superficíe: 4.033 KM2
População: 405.163 hab.