HISTÓRIA E VESTÍGIOS LUSÓFONOS NA

ETIÓPIA


A actual Etiópia é um dos estados africanos que a par do Egipto e do Sudão tem uma das mais ricas histórias civilizacionais. Antes do primeiro milénio antes de Cristo as suas populações já se dedicavam à pastorícia e à agricultura. Durante o primeiro milénio antes de Cristo muitos emigrantes vindos do Sudoeste da Arábia entraram na região, trazendo a sua língua semítica, o seu alfabeto e o trabalhar da pedra para a construção de edifícios. Na região de Aksum, no actual extremo norte do país, surge no início da era cristã um Estado organizado que será o embrião do que actualmente chamamos Etiópia. Com o passar dos séculos o seu domínio territorial será aumentado, incluindo a região da actual Eritreia e toda a costa a partir daqui à actual região de Berberia no norte da Somália; a ocidente, no interior,  controlavam uma vasta área até ao reino de Meroé no que é o actual Sudão; este reino terá inclusivamente atacado e conquistado por Aksum no início do séc. IV; também o sudeste da actual arábia, o que é o actual Yemen foi controlado nesta altura por Aksum; o controlo desta região terá afrouxado posteriormente mas mais tarde no século VI será novamente retomado. O Estado de Aksum também cunhou moedas, teve escrita própria e construiu inúmeros monumentos e edifícios de pedra de que ainda hoje existem vestígios. Estabeleceu também relações comerciais com os Romanos, os árabes, os egípcios e a India. Aksum já tinha relações com o judaísmo desde o seu início como Estado e no decorrer do século II e III o cristianismo vai ganhando muitos adeptos na região. Cerca de 330/340 o rei Ezana converte-se ao cristianismo, fazendo dele a religião de estado. Entre o século IV e o século VI Aksum está no seu auge; mas no final do século VI os Persas Sassânidas expulsam-nos do actual Yemen e atacam Bizâncio e o Egipto, destruindo as suas tradicionais redes comerciais. Estes factores representam o início do declínio deste estado e por isso muitas das suas cidades costeiras vão desaparecendo aos poucos. Com o aparecimento do islamismo Mas o seu povo e uma forma de Estado centralizado irá prevalecer no interior no que é hoje designado as Terras Altas que constituem a Etiópia. Durante os séculos XIII e XIV os muçulmanos vão conquistando os estados cristãos do actual Sudão e efectuam várias incursões sobre os etíopes. No século XV a pressão dos muçulmanos sobre o reino etíope é intensa, que a custo vai tentando manter a integridade do país.

É neste contexto que o rei português D.João II vai enviar 2 emissários para percorrerem o oriente e ver quais os apoios que poderia contar em caso de lá chegar por via marítima. Para esse efeito envia Pero da Covilhã e Afonso de Paiva, os quais sabiam falar árabe. Afonso de Paiva tinha como objectivo ir ao reino da Etiópia, conhecido na época como reino do Preste João e depois de lá seguir até ao Benim e S.Jorge da Mina através das caravanas que atravessam o continente, para assim regressar a Portugal. Ele e Pero da Covilhã foram até Rodes, depois para o Cairo, depois para o Sinai até à cidade de Tôr e daí até ao Aden. Afonso Paiva atravessou o estreito até à costa africana mas terá sido morto antes de iniciar a viagem até às Terras Altas. Pero da Covilhã viajou até Goa, Ormuz e Sofala, retornando depois ao Cairo, onde era esperado por dois portugueses, que lhe traziam indicações do rei para levar um deles a Ormuz. O outro português, José Lamego, voltou a Lisboa com as notícias. Pero da Covilhã ainda foi a Meca e a Medina e depois foi concluir a missão de Afonso de Paiva, chegando ao porto de Zeila (actual Somália) em 1492. Daí partiu para as Terras Altas onde contactou o Imperador Eskendar e a Imperatriz Eleni. Devido aos seus bons ofícios de diplomata e conselheiro, tornou-se mais tarde governador de uma província da Etiópia, onde construiu um palácio e uma Igreja na localidade de Mertule Maryam. O imperador Lebna Dengal subiu ao trono em 1508 e era continuamente aconselhado pelo português e pela Imperatriz. Devido ao avanço dos Turcos na Ásia e na África, estes apoiavam os muçulmanos das costas a se revoltarem contra os Etíopes e perante estas perigosas forças, a Imperatriz Eleni envia uma embaixada a Portugal em 1509 a solicitar ajuda. Só em 1520 a embaixada retorna à Etíopia. Os exércitos islâmicos começam a avançar em força sob o comando de Ahmad Grag'n e em 1529 derrotam estrondosamente o exército numericamente superior de Lebna Dengal em Shemba Kuré. Em 1533 avançam ainda mais e cercam Amba Gesham. Os etíopes pedem novamente ajuda aos portugueses que só respondem em 1541, altura em que o Imperador Galaedewos toma o poder. Nesse ano Amhed Grag'n mata 80 portugueses em Massawa. Mas no início de 1542 começa a contra ofensiva. Cristovão da Gama com 400 homens captura Amba Sanayt e derrota em 2 batalhas Amhed Grag'n. Mas na 3ªbatalha é derrotado, capturado, torturado e decapitado. Os portugueses que conseguem fugir reagrupam-se ao imperador e em 1543 na batalha de Waina Dega derrotam os muçulmanos e matam Amhed Grag'n. O contingente português com novos reforços vindos de Massawa, forma o novo núcleo de forças cristãs de Galaedewos. Devido à dificuldade em saírem da Etiópia e beneficiando da protecção do imperador, por lá permaneceram, combatendo os Galla no sul que estavam a invadir a Etiópia e também os muçulmanos da costa. Em 1554 Massawa é tomada pelos Turcos. Com os portugueses foram levados para a Etiópia muitos conhecimentos, pois muitos eram originalmente artesãos e construtores. Muitos se fixaram junto ao Lago Tana e junto às rotas para Massawa e ainda hoje se encontram por estes lugares pessoas que reclamam a sua ascendência portuguesa. Um bom punhado de missionários portugueses foi para a Etiópia, conhecendo momentos de glória e infortúnio, mas nunca conseguindo mudar a linha ortodoxa da Igreja Etíope. O imperador Minas (1559-1563) limitará as actividades dos católicos. Uma revolta do governador de Tigre, associa a ele os portugueses. Muitos fugiram do imperador Minas e do seu sucessor e fixaram-se em Mai Gwa Gwa, perto de Axum, numa região denominada pelos portugueses de Fremona, a qual se tornará a sede dos Jesuítas na Etiópia. Anos mais tarde é restabelecida a paz e as suas actividades aumentam. Daí existirem nessa época na Etiópia, muitos católicos, tanto portugueses como etíopes como também os seus descendentes resultantes de casamentos mistos.

Em 1603 o padre Pero Pais chega à Etiópia, a qual se encontrava em guerra civil para a sucessão ao trono e consegue ganhar o imperador Za Dengal para a fé católica, mas este é morto no ano seguinte, por Yáqob que também apoiava a fé católica em troca de ajuda, mas é morto em 1606 por Sussenyos que se tornará o imperador até 1632. Muitas vezes é pedida a ajuda militar a Portugal e prometida por este, mas nunca concretizada. O novo imperador apoia os católicos, mas só se queria declarar ao catolicismo se tivesse um exército português ao seu lado, pois os números dos católicos da Etiópia ainda eram inferiores aos da fé ortodoxa. Mas no ano da morte de Pero Pais, em 1622, o imperador declara-se formalmente pelo catolicismo e promove esta doutrina como religião oficial do império, apesar de fé minoritária. Muitos missionários chegam à Etiópia nesta década. Muitas residências jesuíticas foram construídas como fortificações para se defenderem dos potenciais inimigos locais. Dom Afonso Mendes chegou em 1625 com mais missionários e soldados para os guardar. Uma vez mais o imperador e o filho Fasilidas garantiram a lealdade ao Papa. Em 1627 estimava-se existirem 100.000 convertidos ao catolicismo. Mas no ano seguinte rebenta a revolta no Tigre e mais tarde noutras províncias, a favor da fé ortodoxa. Para assegurar a paz é proclamada a liberdade religiosa e em 1632 Sussenyos abdica; o seu filho instaura novamente a fé tradicional e começa a expulsar os jesuítas. Em 1634 são expulsos em massa os jesuítas. Em 1641 consta que o ultimo jesuíta da Etiópia foi capturado e enforcado, terminando assim de uma vez o relacionamento com os portugueses. Não voltariam à Etiópia mas por lá ficaram muitos dos seus descendentes.

No entanto ainda hoje é possivel se ver alguns dos vestígios materiais deixados pelos portugueses, tais como:

- Ruinas de Palácio e Igreja em Mertule Miryam.

- Ponte portuguesa sobre o Rio Nilo Azul, de 70 metros.

- Casa de Pero Pais em Bahr Dar, em muito bom estado.

- Residência jesuítica em Yibaba.

- Ruinas da Basílica de Denqaz.

- Ponte em Gobitit

- Igreja e residência em Desit Ghiorghis, no Lago Tane.

- Ponte em Fasil.

- Residência jesuítica em Gemb Kidane Mehret e  o próprio palácio do imperador Sussenyos.

- Ruinas de Igrejas e residências jesuíticas com formato de fortificação em Gemb Ghiorghis e em Gemb Miryam, construídos em 1625.

- O castelo de Guzara do imperador Sertsa Dengal.

De ressalvar as 6 palavras de origem portuguesa na língua etíope-amárico.