HISTÓRIA E VESTÍGIOS LUSÓFONOS NA
INDONÉSIA
O arquipélago indonésio tal como o conhecemos hoje não era uma entidade unitária quando os portugueses lá chegaram. Era um conjunto heterogéneo de reinos, alguns já islamizados em consequência da fixação de alguns mercadores árabes, nomeadamente nas regiões ocidentais do arquipélago, desde o século XIII. Haviam também diversos reinos hindus.
Depois de instalados em Goa, os portugueses constataram que para controlarem o comércio de especiarias tinham de conquistar a importante cidade de Malaca, porta do extremo oriente, para comerciarem com a China e com as ilhas produtoras de especiarias. Em 1511 Malaca cai em mãos dos portugueses e logo nesse ano são enviadas expedições às Molucas, passando as mesmas por Sumatra, Java, Bali, Lombok, Sumbawa, Flores, Banda, Ternate e Amboino, estabelecendo-se laços com os reinos e populações locais. Com o passar dos anos, foram-se estabelecendo feitorias com guarnições, que nalguns casos se tornaram fortes, a partir dos quais os portugueses interviam nos assuntos locais e dominavam as regiões circundantes. Para se ter uma noção mais objectiva da presença portuguesa na região é necessário analisar as principais ilhas:
Sumatra
No norte da ilha fica Achém, que era um pequeno sultanato islãmico. Com a ocupação de Malaca gerou-se um conflito entre os mercadores portugueses e os turcos e os árabes que começaram então a rumar ao sultanato de Achém; os portugueses ainda ocuparam Achém, onde construiram uma fortaleza, onde permaneceram pouco tempo, abandonando-a e concentrando-se em Malaca. No sul da ilha, os reinos animistas que se sentiram ameaçados pelas tendências expansionistas de Achém, firmaram diversos acordos com os portugueses para se defenderem do sultanato em franco desenvolvimento.
Java
Aqui os portugueses estabeleceram relações com Banten, poderoso principado situado na Java Ocidental. O sultão autorizou os portugueses a construir uma feitoria e mais tarde um forte. Há escassos registos relativos à construção desse forte e julga-se que a permanência dos portugueses terá sido breve. Mas a sua localização era privilegiada pois crê-se que a fortaleza posteriormente levantada pelos holandeses, ainda hoje de pé, esteja assente nas ruinas do primitivo forte português. Em 1596 chegou a Banten a primeira expedição holandesa, que assinou um tratado com o sultão, pondo fim à influência portuguesa em Banten. A oriente de Banten, um pequeno reino que se chamava Sunda Kelapa assinou com os portugueses um tratado e foi erguido um padrão português e construída uma feitoria. O príncipe solicitou aos portugueses a construção de uma fortaleza, para se proteger contra os inimigos vizinhos, mas como se demorou tempo a concretizar este pedido, quando se tentou passar à concretização já os holandeses se tinham instalado no que é hoje a cidade de Jakarta. Em Japara, na Java central, os portugueses chegaram também a estabelecer uma feitoria. Em 1638 foi até estabelecida uma missão religiosa, a qual serviria os refugiados católicos vindos da perseguição dos holandeses em Batávia. Esta Missão foi solicitada pelo sultão de Mataram para se fortalecer contra os holandeses, mas após a tomada de Malaca, o sultão perdeu o interesse e a Missão foi destruída.
Celebes
Os portugueses chegaram a Makassar, capital do importante reino dos Bugis, em 1525. Além de se estabelecer um relacionamento comercial constante, nomeadamente de Sândalo, vários missionários desembarcaram na ilha, onde converteram os diversos reis das ilhas. Em 1568 estabeleceu-se uma Missão dos Jesuítas em Makassar e em 1596 a dos Franciscanos. Com o tempo Makassar tornou-se o centro das actividades comerciais e religiosas na Insulindia. Aqui os portugueses estabelecem uma feitoria e constroem uma fortaleza para o rei em Panakoekang, na zona periférica da cidade. O rei dos Bugis converte-se ao islamismo no início do século XVII, mas o bom relacionamento com os portugueses mantem-se. O sultão escrevia, lia e falava fluentemente o português e o mesmo acontecia com o seu filho que lhe sucedeu em 1638. Com a queda de Malaca em 1641, muitas familias católicas portuguesas e malaias se foram fixar em Makassar. Em 1651 haviam em Makassar uns 3000 católicos, num ambiente de grande tolerância religiosa. Mas em 1660 os holandeses tomam a fortaleza de Panakoekang, impondo ao sultão a expulsão dos portugueses. Com relutância e lentamente o sultão executou essa imposiçao. Os portugueses em numero de 2000, assim como outras famílias católicas, partiram para Macau, Tailândia e Larantuka.
Molucas
Os portugueses chegaram às Molucas em 1512, onde encontraram a dominá-las 2 reinos islâmicos sediados em Ternate e em Tidore.Os portugueses instalaram-se em ternate, onde construíram uma fortaleza. Os espanhois por julgarem que as Molucas pertenciam à Espanha pelo tratado de Tordesilhas, fixaram-se em Tidore alguns anos mais tarde, donde seriam expulsos pelos portugueses em 1527. Em 1536 o rei de Ternate foi preso e levado para Goa, sob acusação de conspiração. Mas em Goa converteu-se ao cristianismo e fez a paz com os portugueses em 1537, doando Amboino a estes. S.Francisco Xavier efectuou muito trabalho missionário nas Molucas e em 1557 existiam 20.000 católicos em Amboino e 20.000 na ilha de Moro. Em 1562 é nomeado o primeiro capitão para Amboino e em 1569 já funcionava uma feitoria em Hitu. Em Hatiwi foi também construída uma fortaleza. Em 1572 foi construída uma fortaleza na cidade de Amboino, dentro da qual foram erigidas 3 igrejas. Em 1575, o sobrinho do capitão mor matou o sultão Hairum e o povo em fúria atacou e destruiu a fortaleza de Ternate, não voltando a ser ocupada pelos portugueses, os quais preferiram construir em 1578 uma nova fortaleza em Tidore. Devido à ofensiva holandesa nas Molucas, em 1601 Hatiwi é conquistada por estes e em 1605 a restante ilha de Amboino e a ilha de Tidore são conquistadas. Em Amboino, as 32 famílias portuguesas sobrevivente refugiam-se no interior da ilha.
Pequenas Sundas
Estas ilhas também foram visitadas pelos portugueses logo depois da conquista de Malaca e a partir de 1522 desenvolveu-se uma acção evangelizadora nestas ilhas com bastante sucesso. Em 1566 foi construída a fortaleza de Solor para proteger a Missão dos ataques dos muçulmanos de Java e das Celebes. No outro lado do estreito, em Larantuka, na ilha das Flores, foi fundado um Seminário. Em 1577 já haviam 50.000 católicos nas Pequenas Sundas. Os reis de Larantuka e Sika converteram-se ao catolicismo. Os holandeses aliados aos muçulmanos conquistaram Solor em 1613, mas devido à menor importância comercial do lugar abandonaram o forte em 1629. Os portugueses ainda reconstroem a fortaleza mas abandonam-na em 1636 fixando-se definitivamente em Larantuka. Em 1660 a comunidade católica das Flores foi reforçada com a chegada das familias portuguesas vindas de Makassar. Na ilha de Ende Minor existiu também uma fortaleza para proteger a Missão, mas em 1637 uma revolta entre portugueses destruiu a fortaleza, levando ao seu abandono. Na ilha de Timor, em Kupang, os missionários portugueses estabeleceram-se em 1646, onde iniciaram a construção de um forte, mas em 1651 os holandeses tomaram esse forte, ainda inacabado e terminando-o. Em 1851 Portugal assinou um tratado com a Holanda renunciando a todos os direitos nas Flores, até então considerada zona de influência portuguesa. O governo holandês comprometeu-se a garantir a liberdade da Fé católica das populações.
Em relação aos vestígios da passagem dos portugueses pela Indonésia, eles levaram do Brasil e introduziram no arquipélago o tomate, a mandioca, o agrião, a alface, a malagueta, o ananás, a papaia e a batata doce, culturas hoje em dia espalhadas por todo o país e que passaram a fazer parte do cardápio dos indonésios.
Na língua bahasa que é a língua nacional indonésia, existem cerca de 100 palavras de raiz portuguesa, pois desde o século XVI ao XVIII o português era a língua franca das regiões costeiras, forçando mesmo os holandeses a aprendê-la. Muitas pessoas nas ilhas de Amboino, Flores, Celebes e em Vure, na ilha de Adonara têm nomes de origem portuguesa. O próprio nome da ilha das Flores foi dado pelos portugueses.
Em termos de vestígios materiais existe o Forte de Panakoekang, reestruturado pelos holandeses; as ruinas dos fortes em Tidore e Ternante; as ruínas do forte Dambase na ilha de Haruku; as ruínas da fortaleza de Solor, ainda com os seus canhões; as ruínas das feitorias em Hila e Hitu em Amboino.
