HISTÓRIA E VESTÍGIOS LUSÓFONOS EM
MARROCOS
O actual território de Marrocos foi palco ao longo da história de diversas conquistas exteriores e onde igualmente se formaram vários impérios. Na Antiguidade foi conquistado pelos Romanos que aí permaneceram até ao século IV depois de Cristo. Durante a queda do império Romano foi invadido pelos Vândalos que expulsaram as tropas Romanas, mas não permaneceram no território, preferindo dirigir-se para a actual Tunísia onde se fixaram. O território ficou assim nas mãos dos Berberes, seus habitantes originais. No início do Séc. VIII os árabes da dinastia Omíada invadem o território, conquistando-o totalmente. Depois de conquistarem o posto avançado de Ceuta aos Visigodos (que antes havia pertencido aos Bizantinos), em 711 os árabes e os berberes invadem a península ibérica e conquistam quase todo o território, avançando depois para França. Com a queda da dinastia Omíada em meados do Séc.VIII, o território ibérico separa-se politicamente e forma o Al-Andalus. Este novo Estado irá prosperar durante séculos e manterá durante alguns períodos a posse das cidades africanas de Ceuta e Tânger.
Gradualmente os laços do actual território de Marrocos com o Califado Abássida no oriente vão-se perdendo e o território agora largamente islamizado vai fragmentando em vários territórios controlado cada um por uma tribo autónoma. Um desses lideres vai em 1036 a Meca e depois para na actual Tunísia, em Kairouan onde pede um teólogo que vá ensinar os ensinamentos islâmicos ao seu povo, o qual já quase tinha esquecido esta fé. Esse teólogo irá fundar a partir de 1050 o Estado Almorávida, o qual conquistará a maioria do actual território Marroquino. Em 1086, após já terem conquistado Ceuta e o sul da Argélia, avançam para a península ibérica a pedido do governante de Sevilha onde a norte desta cidade derrotam o exército cristão, impedindo o avanço deste. No ano seguinte voltam novamente para conquistarem todos os estados muçulmanos independentes da península ibérica. Estabelecem a sua capital em Marrakesh. Em 1140 muitos berberes se juntam e formam a força dos Almóadas. Em 1147 atacam Marrakesh e alguns anos depois conseguem destruir todo o poder Almorávida. Passam à península ibérica em 1170 onde conquistam todo o espaço muçulmano e derrotam em 1195 o rei de Castela na Batalha de Alarcos, travando o avanço Cristão. O Estado Almóada vai se expandir conquistando todo o actual território da Argélia, da Tunísia e grande parte da Libia, até às fronteiras do Egipto. No entanto entra em crise no séc. XIII e vai perdendo a sua base de apoio, talvez devido ao seu fanatismo religioso. Em 1212 sofrem uma importante derrota militar em Navas de la Tolosa na península ibérica, acelerando assim o processo de reconquista cristã; surge aqui o reino independente Nasrita de Granada que aguentará a pressão cristã até 1492. Em África surgem os reinos de Tunis e Tremecem que se separam dos Almóadas. Mesmo Fez é conquistada e nasce aqui outro reino que controlará uma parte de Marrocos.
Num contexto de alguma fragmentação política em Marrocos, Portugal conquista Ceuta em 21 de Agosto de 1415, com uma frota de 242 navios. Esta foi a primeira conquista ultramarina de Portugal e marca o início da expansão de Portugal além mar. Esta cidade era um dos centros de comércio mediterrâneo, onde muitos navios árabes acostavam e onde afluíam muitas caravanas africanas com ouro, cereais e peles. Em 1437 uma expedição portuguesa tenta também tomar a cidade de Tânger mas não será bem sucedida; com o auxilio de tropas do Rei de Fez e do Rei de Marrocos as tropas portuguesas sob comando de D.Henrique são forçadas a capitular, ficando o filho do Rei, D.Fernando como refém.
Em 1459, é decidido tomar a localidade de Alcácer Ceguer, não só para a tornar posto avançado para a conquista de Tânger como para enfraquecer as tentativas do Rei de Fez para reconquistar Ceuta. Com 220 navios e 25.000 homens após um dia de combates a localidade rende-se aos portugueses. Durante vários anos irão continuar várias tentativas falhadas para tomar a cidade. Mais tarde, em 1471 e sempre com o objectivo final de Tânger, a sul desta cidade existia a localidade de Arzila; o rei português na companhia de 470 navios desembarca junto a ela e em 2 dias tomam a cidade, matando grande número de habitantes e escravizando os restantes 5000. Chegando esta notícia a Tânger, os seus habitantes a abandonaram para não sofrer a mesma sorte e dias depois os portugueses ocuparam esta cidade sem disparar um tiro. Todo o extremo norte de Marrocos ficou assim nas mãos portuguesas que no entanto não conseguiam estender muito a sua autoridade para além da vista das muralhas das suas cidades. Se é correcto afirmar que destas cidades Portugal retirava muitos bens necessários a Portugal, como grandes quantidades de cereais, a manutenção das mesmas em termos de despesas militares onerava muito o erário público.
Só início do séc. XVI se recomeça a expansão em Marrocos. Em 1488 já havia sido estabelecida uma feitoria em Safim; em 1508 a cidade é conquistada. Já antes em 1505 é conquistada Santa Cruz do Cabo Gué. No ano seguinte é a vez de Mogador e de Aguz. Em 1513 é conquistada Azamor e no ano seguinte Mazagão. No entanto algumas destas conquistas não serão mantidas muito tempo, procedendo-se ao abandono de Mogador em 1510 e de Aguz em 1525. As restantes praças portuguesas irão conhecer períodos de paz alternados com cercos, os quais consomem grandes quantidades de homens e de erário público. Os proveitos retirados da sua posse são cada vez mais diminutos e a atenção comercial de Portugal vira-se cada vez mais para o Oriente e para o Brasil. Em consequência de tudo isto, no ano de 1541 são abandonadas as praças de Safim e de Azamor e conquistada pelos Marroquinos a praça de Santa Cruz do Cabo Gué, situada próximo de Agadir. Reduzido a Mazagão e às cidades do extremo norte de Marrocos, numa tentativa de defender este espaço os portugueses constróem em 1549 uma fortificação no monte que domina Alcácer Ceguer, chamado de Seinal. Um ataque marroquino obriga ao seu abandono mesmo antes do início da sua operacionalidade. Perante este desaire e convencido que a existência de fortalezas no território marroquino aumentava a união e a hostilidade destes, o rei D.João III ordena o abandono de Alcácer Ceguer e de Arzila em 1550. Portugal permaneceria assim apenas com 3 cidades para a manutenção do comércio e protecção das suas linhas de navegação à entrada do Mediterrâneo.
Contudo verifica-se mais tarde um anacrónico retrocesso nesta política de pacificação. D.Sebastião, seu neto, tornado rei de Portugal, por influência de uma corrente interna que o aconselhava a conquistar Marrocos e assim aumentar a fé cristã e diminuir a crise económica que se verificava, lança-se num empreendimento perigoso contra Marrocos. Este país ainda não se encontrava unificado e estava em 1577 em plena guerra civil entre dois pretendentes ao domínio da região. Um deles prometeu a Portugal a maior parte das cidades costeiras de Marrocos e logo o rei português se entusiasmou. Assim neste ano volta a ocupar Arzila para o ajudar nas operações militares futuras. No ano seguinte parte de Arzila o rei português, ao qual se irá juntar o pretendente marroquino aliado com o seu exército. Enfrentam ambos em Alcácer Quibir uma batalha com o outro rei marroquino, onde morrem os três reis e o exército português completamente desbaratado. O filho do rei vencedor irá a partir desta batalha unificar pela primeira vez desde os Almóadas, todo o Marrocos e constituir um reino estável.
Portugal perde a sua independência para a Espanha dois anos depois e em 1589 em consequência dos acordos de paz efectuados pelo Rei Filipe II, Arzila é devolvida a Marrocos. Com a Independência de Portugal em relação a Espanha em 1640, a cidade de Ceuta, a qual dependia dos abastecimentos espanhóis para se manter, decide permanecer nas mãos espanholas, não sendo devolvida a Portugal nem depois dos acordos de paz de 1668. Em consequência da guerra entre Portugal e Espanha após 1640, Portugal oferece em 1661 a cidade de Tânger como dote do casamento da rainha D.Catarina com o rei inglês. Anos mais tarde estes abandonam a cidade mas recusam-se a devolvê-la a Portugal, apesar do interesse manifestado por este país. A ultima possessão que Portugal manteve em Marrocos foi Mazagão; era uma vila fortificada com uma população maioritariamente portuguesa. Junto a esta localidade existia a povoação de Anfa, denominada pelos portugueses de Casa Branca (actual Casablanca) ocupada pelos portugueses em 1575, abandonada após o terramoto de 1755 e reconstruída pelos marroquinos logo depois. Anos depois em 1769, o Sultão de Marrocos cerca com um grande exército Mazagão. Portugal decide então abandonar esta ultima praça e transferir os seus habitantes para o Brasil. Hoje em dia pouco mais existe do que a grande cisterna.
Em Ceuta, ocupada pela Espanha ainda são visíveis a grande fortaleza no monte e a fortaleza na cidade, marcos bem conservados do período português. Em Arzila ainda prevalecem uma parte das muralhas portuguesas. Em Alcácer Ceguer ainda se podem ver as ruínas da fortaleza portuguesa e no monte sobranceiro as ruínas do castelo de Seinal. Em Aguz também são visíveis as ruínas do castelo português. Em Safim também é possivel ver algumas fortificações do tempo português. Nas restantes localidades também é possivel ver algumas partes de muralhas do período português, com excepção de Tânger que depois de várias ocupações estrangeiras perdeu praticamente todos os vestígios do período português.
